Depoimento: como a BM&A tornou-se minha parceira




*Por Fabiane Pereira

Ser mulher, brasileira, jornalista e ainda trabalhar exclusivamente com música num país governado por pessoas que desprezam o conhecimento cultural e científico poderia ser uma maldição. Talvez até seja, não sei. Porém não sou dessas que ecoam frustrações. Ao contrário, costumo potencializar – o que seriam – desvantagens em molas propulsoras. Ao longo da vida, tornei-me expert na construção de pontes já que o muro nunca foi um lugar confortável pra mim.

Construir relações, conectar ideias e religar pessoas são os pilares da minha vida. Fui, aos poucos, tornando-me jornalista. Não foi o diploma na faculdade que me conferiu tal título e, sim, as conversas que tive, as entrevistas que fiz, os textos que escrevi, os livros que li, os discos que escutei, as músicas que cantarolei, os poemas que me emocionaram e, certamente, as parcerias que desenvolvi ao longo de quase 15 anos dedicados a este ofício.

É difícil escrever sobre música porque palavras sempre ficam aquém da intensidade do som. Mas busco diariamente fazer esse exercício. Nem sempre falo sobre música através da escrita. Aliás, no último ano quase não fiz isso. Embora 2019 tenha sido o ano em que mais falei sobre música através do meu canal no Youtube, o Papo de Música.

Semanalmente, coloco no ar uma entrevista com um artista brasileiro ligado à música. O canal é um dos raros no Youtube que tem a música como protagonista e, ao lado do meu parceiro Vitor Souza Lima, criei um espaço democrático que promove todo tipo de estilo, sem qualquer restrição de gênero.

O Papo de Música me fez conhecer instituições, marcas e pessoas que têm como premissas o fomento da música brasileira. A BM&A (Brasil Música & Artes) foi uma das organizações que conheci este ano. Uma organização sem fins lucrativos que atua na geração de conhecimento e oportunidades no mercado da música com foco no exterior.

Conquistar seguidores no Youtube, esse terreno habitado por produtores de conteúdos rasos, é tarefa árdua. Haja criatividade e insônia. Foi numa dessas noites sem dormir, que pensei num projeto ousado. Queria celebrar o primeiro ano do canal colocando no ar entrevistas com artistas brasileiros gravadas mundo afora. Mas quem pagaria por isso?

Como viabilizar um projeto assim com o dólar custando um rim?

Sempre que falo sobre as dores e as delícias de se trabalhar com cultura neste Brasil, tento não reproduzir a narrativa idílica, tampouco a catastrófica. Mas o fato é que o Papo de Música Pelo Mundo tinha tudo pra ficar apenas no campo das ideias se não fosse um quesito já mencionado nesse (longo) texto: as adversidades da vida tornou-me expert na construção de pontes.

Com um projeto debaixo do braço e uma ideia na cabeça, bati em muitas portas e algumas delas se abriram. A da BM&A foi uma delas e graças ao aporte financeiro que eles me deram consegui viabilizar a gravação de uma entrevista íntima e musical com dois artistas por quem tenho muito apreço, Ava Rocha e Curumim, na cidade de Medelin, localizada na Colômbia. A dupla estava na cidade para participar do Festival Circulart, um dos mais importantes festivais para a música independente da América Latina. Ava e Curumim também viajaram até lá com o suporte da organização. A entrevista vai ao ar dia 21 de janeiro no Papo de Música.

O projeto “Pelo Mundo” estreou com a Tiê numa gravação feita em Nova York com recursos de outros parceiros e já está no ar:

                            

A verdade, é que acredito que todos concordam com ela, é que é preciso coragem pra morar no Brasil (sorte e noções de técnicas ninja também). Envelhecer nos ensina, entre outras coisas, que o mais fácil nunca é o mais interessante. Por isso, tenham coragem e circulem. Marcas apoiem quem faz a música brasileira circular. Ela é nosso melhor cartão de visitas. Feliz ano novo!

*Fabiane Pereira é jornalista, apresentadora, curadora, escritora, roteirista, programadora e pesquisadora musical.