A Europa é um dos principais destinos de músicos brasileiros que desejam uma carreira internacional. Para ajudar a esses artistas com mais informações sobre o mercado europeu, a BM&A conversou com Benjamin Taubkin, um dos artistas brasileiros mais reconhecidos internacionalmente. Ele foi o curador do europália.brasil Festival, evento que aconteceu principalmente em Bruxelas, na Bélgica, durante o ano de 2011.
Taubkin trabalha com música desde a adolescência e já atuou como produtor, curador, músico e compositor, sempre focando em músicas que valorizam o conteúdo e a criação, desde estilos tradicionais até ritmos contemporâneos. Em 1996 ele criou, com um seleto grupo de artistas, o projeto Núcleo Contemporâneo – uma produtora e selo alternativo.
Benjamin está envolvido também em outros projetos e programas sobre a tradicional, moderna e urbana música brasileira ao redor do mundo, trabalhando junto com músicos e compositores de lugares como Marrocos, Coréia, Israel, África do Sul, Índia e América do Sul.
Em 2011, tocou com a Jazz Sinfonica Orchestra, em São Paulo – uma experiência que pretende dar continuidade.
Este ano o músico está envolvido em três projetos de CD – o primeiro voltado para a música brasileira e marroquina, o segundo misturando ritmos brasileiros tradicionais do nordeste com batidas urbanas e modernas, e o terceiro, uma parceria com o percussionista Adriano Adewale. Como curador, ele é responsável por escolher os artistas para Casa do Núcleo e Mercado Cultural da Bahia – que está programado para acontecer em dezembro.
Confira a entrevista que a BM&A realizou com Taubkin:
- O que é a Europália?
Europalia é uma instituição belga que, a cada dois anos, organiza um festival dedicado às artes de um determinado país ou região do mundo. Em 2011 o Brasil foi o foco; em 2013 será a Índia. Em 2009, foi a China. Eles parecem estar lidando com os BRICs.
- Qual foi exatamente a sua participação no festival?
Fui convidado para ser o curador de música do evento.
- Como foi ser curador de um projeto como este?
Não foi um processo simples – foi um trabalho duro e bem complexo. Primeiro eu fui à Bélgica para encontrar vários curadores diferentes, e conhecer os diferentes espaços culturais disponíveis. Europalia trabalha em parceria com centros culturais belgas, teatros, salas de concertos. Nestes primeiros encontros eu apresentei minhas ideias, e fiquei por dentro das expectativas para cada espaço. A partir destes contatos iniciais, um primeiro esboço da programação proposta foi feito. Minha intenção era abraçar o universo mais amplo possível que representasse a música de várias regiões. Mas para cada proposta, eu precisava encontrar um espaço que mostrasse interesse no que estava sendo proposto. Tomando a música clássica como um exemplo, eu gostaria de ter incluído compositores importantes do século XX, como Camargo Guarnieri, Cláudio Santoro, Radamés Gnattalli e outros. Mas isso não era possível. Por outro lado, consegui incluir no programa o “Camerata Aberta”, grupo dedicado à música erudita contemporânea brasileira. Eu também queria levar para a Europa alguns universos musicais que não tiveram muita exposição por lá, como a viola, o acordeon, a música instrumental, o choro – o que de fato aconteceu.
- E como o público europeu reagiu à arte brasileira?
Eles receberam muito bem, na verdade. Em nossa avaliação final, houve o diagnóstico que o teatro, dança e música foram os destaques do festival em termos de resposta, tanto pelo público, como pela mídia local. Claro, nem todos os eventos tinham uma casa cheia, mas isso é porque se optou por apostar em novos artistas e / ou artistas desconhecidos na Europa. Muitos tiveram a oportunidade de tocar pela primeira vez nesse continente. Eu acredito que esta é uma das principais responsabilidades de iniciativas governamentais, o de assumir riscos para promover as novas produções culturais.
- Como você, agora, avalia o evento?
Eu acho que na Bélgica e Holanda (onde também aconteceram várias apresentações), os resultados foram muito positivos. Eu estava em Bruxelas para a cerimônia de encerramento, em janeiro, e ouvi de vários realizadores do evento que suas expectativas foram cumpridas. Por outro lado fiquei surpreso com a falta de interesse da imprensa brasileira durante todo o evento. O pouco conteúdo que foi publicado nos principais meios de comunicação se concentrou nas dificuldades que passamos – que são naturais em eventos desse porte, e ocorrerá sempre em tais iniciativas. Mas o projeto foi muito bem sucedido. Nós temos um relatório vindo da imprensa europeia com mais de 200 páginas, somente sobre música. Tudo com críticas positivas. O Brasil foi destacado positivamente durante todo o ano de 2011 nesses países. A marca do Brasil na Bélgica foram as bandeiras Volpi – foi muito bom vê-las espalhadas em praças e ruas, um anti-clichê. E é uma pena que ninguém tenha mencionado isso na imprensa brasileira.
Gostaria de fazer uma ressalva: Quando convidado para realizar a programação pelo Ministério da Cultura do Brasil, soube que a instituição belga havia feito o mesmo convite para um profissional local – de tal forma que faríamos um trabalho em parceria. Mas no processo, não conseguimos afinar nossos pontos de vista – e ele terminou por se desligar do evento. Tentei levar em conta algumas iniciativas que ele havia proposto, eventualmente adaptando alguma coisa. Mas não foi um trabalho feito em conjunto.
- O que, em sua opinião, precisa ser feito para aumentar a participação de artistas brasileiros no mercado internacional?
Bem, a Europa hoje está lidando com uma crise que já afeta os investimentos em projetos culturais, mas acho que ainda há espaço para o que é produzido aqui. Constância é importante. Nós já vemos uma maior presença brasileira em eventos como Womex e Jazzahead, isso é parte do processo. Convidar os produtores europeus e curadores para conhecer o país também tem dado resultados. É o tipo de trabalho que recompensa com o tempo. O Brasil tem uma grande vantagem, ele não produz música para consumo externo, e isso significa que o que deixa o país é autêntico, genuíno, e está sendo constantemente sendo renovado. E isso mantém o público interessado no que está acontecendo.




























