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europalia.brasil por Zjakki Willems

06 março, 2012 | Mercado da Música

Zjakki Willems começou a trabalhar para a rádio pública belga em 1975 e liderou o programa semanal ”Club Tropical”, de world music, em 1984, e “Cucamonga” (revista sobre rock, blues e world music) em 1993. Foi co-fundador da EBU World Music Workshop em 1987 e é membro do World Music Charts Europe. Suas transmissões ganharam vários prêmios belgas e europeus. Willems tem se especializado em música brasileira desde que entrevistou Chico Science, em 1994, e a partir de então fez cinco séries sobre música brasileira: Rádio Brasil (2000), Rádio Mangue (2002), Sintonize Pernambuco (2003), SamPa Beats (2006), Radio Mauritsstad (2009) e Rádio Mauritsstad (versão em francês) (2011). Atualmente faz o programa “World Closing Time” para Radio 1, na Bélgica, e mixtapes de música brasileira para Multicult.fm em Berlim, além de ser o curador de música para o europalia.brasil festival (2011-2012).

Leia abaixo suas impressões sobre o festival:

europália.brasil se encerrou. O festival durou de 04 de outubro de 2011 até 15 de janeiro de 2012 e atraiu milhares de pessoas. A maior parte delas foi para uma das seguintes exposições: Brazil.Brasil, Art in Brazil (1950 -2011), Paulo Mendes da Rocha, Extremes, Indios no Brasil, Terra Brasilis, A Rua, Pearls of freedom – Afro-Brazilian jewelry, Incorporations, Gravura extrema, Bispo do Rosário, Copacabana, Rio in Panorama, Design Brasil, Lina Bo Bardi, Sérgio Bernardes, Brasília, Of gold and feathers, Samba etc. Brazilian carnival, Circuito dos Diamantes, Travelogues, Tintin et Milou chez les Arumbayas, Rua na Rua, Retratos Brasileiros, Repórter Sem Beiras e Faixas aqui.

Sem dúvida a maioria das exposições foi um sucesso, não só em relação ao conteúdo artístico, como também ao número de visitantes que atraiu. Mas, curiosamente, a mostra principal “Brazil.Brasil” atraiu apenas 50.000 visitantes, o que não é muito em comparação às edições anteriores do Europalia (China, Rússia, etc). Por outro lado, “Índios no Brasil” foi prorrogada até 15 de abril devido ao enorme sucesso.

Então europalia.brasil foi um sucesso? Sim e não. A maioria das exposições foi um sucesso, como eu escrevi, mas a cultura brasileira também é música! E para a parte musical do festival, os resultados foram bastante variados. O ponto positivo é que houve muitos shows brasileiros e a mídia deu maior atenção à música do Brasil. O ponto negativo é que o programa de música do europalia.brasil não pode dar uma visão completa do cenário musical brasileiro. Não houve bossa nova, hip-hop, aparelhagem (o primo brasileiro do Sound System jamaicano), maracatu, funk carioca… Além disso, vários shows foram cancelados: Nação Zumbi, Banda Eddie, Marcelo D2, Renata Rosa…

Tomemos, por exemplo, Nação Zumbi: eles eram parte de uma noite intitulada “Recife Beat” programado em três espaços principais: Handelsbeurs in Gent, Warande in Turnhout e Melkweg in Amsterdam.  Então veio a notícia de que a “Recife Beat” tinha sido cancelada “porque havia muito do Recife”. Cancelamentos não são bons sinais para os profissionais da música e, consequentemente, isso pode ter um impacto negativo sobre os futuros shows brasileiros na Bélgica e na Holanda.

Sobre o nível artístico e a participação dos shows? Não vi um show ruim, pelo contrário, vi muitos shows bons e excelentes. O público é que nem sempre foi muito bom. Fiquei muito satisfeito com os shows com ingressos esgotados ou quase esgotados de CéU, Samba Chula de São Braz, Tom Zé etc. E, claro, com o tremendo sucesso do brazilian underground. Por outro lado, alguns shows tiveram um público baixo, principalmente por causa da falta de conhecimento da cena musical belga, resultando na programação de bandas boas nos lugares errados ou em uma combinação equivocada. Tomemos por exemplo o show de Siba no Palácio de Belas Artes de Bruxelas: era fantástico, mas nem sequer atraiu 150 pessoas em um salão com 470 lugares. A noite antes de Renato Borghetti, Olivinho e Lulinha Alencar atraiu menos de 500 pessoas em uma sala com 2000 lugares. É uma pena, todos esses artistas mereciam uma programação mais profissional.

E que tal a música brasileira na Bélgica e na Holanda agora que europalia.brasil acabou? Centenas de pessoas descobriram artistas brasileiros que não conheciam, clichês sobre música brasileira foram rompidos e os organizadores de shows que tiveram uma experiência positiva tornaram-se mais abertos à música brasileira. Tudo isso é muito positivo. Mas europalia.brasil poderia ter sido uma boa oportunidade para a construção de estruturas para mais shows brasileiros no futuro. Nesse sentido, o festival falhou.

Por exemplo, o Botanique, uma das principais salas de concertos na Bélgica, queria começar uma série de noites brasileiras. A primeira noite teria sido um evento europalia: a “Noite de São Paulo” com Hurtmold, Lurdez da Luz e Soukast. Como Recife Beat, essa noite foi confirmada e, em seguida, cancelada.

Apesar disso, alguma coisa ficará de europalia.brasil: a “Retratos Brasileiros”. É um projeto de dez retratos e dez vídeos sobre o tema “O que é cultura brasileira?”. “Retratos Brasileiros” também é parte de um projeto social e artístico do cineasta belga John Erbuer em colaboração com a CCJ Recife, um centro para jovens que vivem nas favelas. Lá eles desenvolvem filmes e fotos através de workshops. Dê uma olhada no “Retratos Brasileiros” aqui.

Zjakki Willems







 

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